É tarde, mas...
o poeta não pode adormecer ainda;
sente as emoções do parto:
um novo filho vai nascer!
Ainda não sabe o nome...
provavelmente um pronome...
um verbo no passado...
um adjetivo ensaiado...
um presente dos Deuses...
ou um futuro abstrato
com a descrição de um retrato.
Nasce o filho do poeta!
Chora de fome...
fome de afeto,
carente..., tímido em se mostrar
ou, quem sabe, ousado...
Será ele fruto do amor...
da vingança...
da melancolia...
ou da esperança?
Sorri o filho do poeta!
Quer brincar com o mundo...
com os corações...
Quer abraçar...dar as mãos...
entrar nos sonhos e deles sair
sem deixar nada em branco...
revestir alegrias e tristezas
de acordo com as necessidades
independente das idades.
Cresce o filho do poeta!...
Ah, quanta ansiedade em tocar um coração!
Quanta magia na procura...
na máscara que esconderá sua loucura
gerando o arremesso climático do prazer
para quem acaba de renascer
como fiel leitor... ou
mãe da sua própria dor.
Começa a andar o filho do poeta!
Mostra-se arredio...tímido...
esconde-se por trás das cortinas...
quer sair correndo...
tremendo...temendo
as críticas...as vaias...
os olhares sedutores das saias
ou as gravatas preconceituosas
que deixam falir o melhor do prazer
ou, quem sabe, morrer!
Vai amadurecer ...o filho do poeta!
Provavelmente,
se tornará um exemplo...
diversos exemplares
criticados...aplaudidos...
imitados...
com rugas....
menos circulados
mas ...
jamais esquecidos...
fora de moda...
sem pai...sem autoria
Ilka Vieira
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