Quase passo pela saudade sem a
perceber... Mas, não! Não é justo deixar de notar esse sentimento tão
forte, por vezes gostoso, por outras doloroso, chegando a tomar as
rédeas das nossas atitudes, lambuzar as nossas vidas, partir em pedaços
estruturas que pareciam tão fortalecidas... tirar nossos pés do chão...
Saudade faz coisas tão inexplicáveis que merece maior atenção.
Eu já Sofri de Saudade dando murros nas sombras; já sofri de saudade por
alguém que não poderia voltar a ver; já sofri de saudade boba, aquela
cuja ausência se faz por apenas um dia; já sofri de saudade por quem
esteve encostado no meu corpo, mas não soube se fazer presente; já sofri
de saudade pequena, aquela que logo se reconhece não valer a pena.
Eu já Sorri de Saudade contornando boas lembranças; já sorri de saudade
da infância, aquela que só a doçura da criança escreve para jamais
esquecer; já sorri de saudade pensando na minha ingenuidade do primeiro
amor; já sorri de saudade das histórias de mentirinhas do meu avô; já
sorri de saudade das amiguinhas que guardaram meus primeiros
segredinhos, não porque souberam guardar segredos para a vida toda, mas
porque a vida toda não nos manteve amiguinhas; já sorri de saudade dos
sonhos que pensei tornar realidade, mas a realidade é tão dura que
envelhece os sonhos sem lhes dar vida... personalidade.
Eu já Morri de Saudade de mim, aquela saudade que leva o melhor da
gente, extravia...
Ilka Vieira
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