Acabara de
mudar-me da zona sul do Rio de Janeiro para a Tijuca, bairro da zona
norte, tão ameaçado pela violência carioca quanto toda a cidade. A gente
vai contrapesando a idade, os conceitos, as carências e até as
praticidades da fase em que nos situamos e resolvemos fazer mudanças. É
certo que, apesar disso, o medo continua em nós, não deixamos de temer
tudo, quase levamos uma "subvida"!
Aluguei um apartamento agradável, com vista linear para
os mais diversos prédios residenciais; vizinhos era o que não me
faltava, desconhecidos, é claro! Por curiosidade ou fator ambientação,
começava a especular, através das janelas, quem eram eles: se
mal-encarados, curiosos, harmoniosos, desocupados, insones, tarados... O
fato é que todas as minhas janelas eram muito indiscretas, tanto para
eles, quanto para mim.
No entanto, a varanda, por ser mais aberta, dava-me a
sensação de que poderia disfarçar olhando para os lados, caso fosse
surpreendida por algum deles. Afinal, eu também não gostaria de ser
especulada!
Diariamente, antes de sair para o trabalho, dirigia-me para lá, onde, de
pé, ingeria o meu rápido cafezinho. O playground, logo abaixo da
varanda, até que oferecia uma bonita paisagem: árvores de meia idade,
plantas bem cuidadas, silêncio (pela ausência das crianças que
provavelmente ainda dormiam), e passarinhos inspirando-me a sonhar!
Um desses dias, ao erguer um pouco a cabeça, meu olhar
transpôs a vidraça de uma das janelas do apartamento em frente,
deixando-me ver uma pilha de pastas semelhantes a processos normalmente
estudados por advogados, juízes etc. E assim, começava eu a estabelecer
um marco de identificação dos meus vizinhos, com base nos elementos que
cada um deles me possibilitava captar. Tornou-se agradável a minha
rotina matinal do cafezinho na varanda, principalmente por eu já
acompanhar a rotina dos vizinhos com menos constrangimento e mais
ousadia.
Certa manhã, conheci o dono da pilha de processos:
avistei-o sentado, lendo... , lendo... Era exatamente como o imaginara:
idoso, compenetrado e limpinho. Sentava-se diante das pastas, os cabelos
molhados e penteados, como se tivesse acabado de tomar banho. Percebi
que havia sido colada na sua janela uma folha branca na qual fora
desenhado um grande sol... muito colorido. Esse fato evidentemente
aumentou a minha curiosidade; a cada dia eu constatava que isso tinha
que ter algum fundamento, pois o sol nem sempre era colocado na vidraça,
mas a minha ousadia cobrava que o fosse, sem que o velhinho o soubesse!
Quando eu saía para o trabalho sem ter visto o desenho do sol na vidraça
ficava quase transtornada, porque também não o veria à noite: quando eu
voltasse para casa, provavelmente já encontraria aquele senhor dormindo,
luzes apagadas.
Uma ocasião, consegui vê-lo colocando o desenho, o que
era feito como um ritual: colava-o e ali permanecia olhando-o por alguns
minutinhos. Às vezes, sentava-se diante dos processos, mas o sol não era
colado na vidraça...Por que não???
Num domingo ensolarado, lá estava o velhinho
compenetrado na sua leitura dos processos, mas o sol não estava colado
na vidraça. Foi aí que constatei o quanto sou audaciosa: chamei-o por um
"psiu" insistente; quando o velhinho me olhou apreensivo, perguntei-lhe,
gritando (talvez não ouvisse bem):
- Cadê o sol ; ...o desenho do sol ?
Ele me respondeu, sem gritar, mas de forma que eu o
ouvisse:
- Eu a estou ouvindo muito bem e a estou entendendo,
mas hoje não há sol!!
Então apontei para o sol que iluminava aquela manhã,
provando-lhe que não era verdade. O velhinho acenou negativamente com o
dedo e retrucou:
- O sol está dentro de cada um de nós; procure o seu,
mas saiba lidar com ele quando estiver apagado!!!
Sorri-lhe apenas e me retirei da varanda, buscando o
meu sol, que nesse dia, por acaso, estava enfermo...; talvez por isso,
inconscientemente, estivesse querendo ver o sol do velhinho!
Passei muitos dias sem me aproximar da varanda, até que
tomei coragem e procurei o sol do velhinho. Mas, dessa vez meu olhar
atravessou a vidraça e...fiquei triste: o apartamento estava vazio. Nem
pastas, nem velhinho, nem sol...
Fiquei tão triste por ele ter-se mudado dali...Será que
ele se incomodou com a minha ousadia? Será que preferiu sair de perto de
quem não sentia o seu próprio Sol ? Olhei por alguns dias aquele espaço
vazio com imensa tristeza.
Aproximadamente um mês depois, indaguei sobre ele ao porteiro
do prédio onde morava; fui informada de que havia falecido. O SOL dele
permaneceu na minha mente, colado à vidraça, enquanto que o meu
aplicou-me uma lição para toda a vida:
Ainda que dentro de mim faça escuro, precisarei
renascer iluminada!!!
Ilka Vieira
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