Alimento da Esperança



 

     Era 2ª feira, verão carioca, e dirigia-me ao trabalho. Pensava no grande número de pessoas que estava de férias, aproveitando a praia, caminhadas com amigos, enfim, tudo que eu gostaria de estar fazendo...
     O trânsito congestionado contribuía para o meu mau humor, mas que jeito?
     Parei no sinal e, como carioca traumatizada, mantinha os vidros do carro fechado, o que não impedia assaltos, mas sentia-me enganosamente segura.
    Percebi que algumas crianças de rua aproximavam-se dos carros parados pedindo dinheiro, coisa habitual. Com o narizinho espremido no vidro da minha janela, assustei-me com um olhar ingênuo de uma menina; fitava-me como súplica. Perguntei-me: - Como pode um olhar se comunicar com tamanha força e conseguir persuadir mais do que palavras?
     Senti um desejo forte de abrir o vidro do carro e, com todo receio de que por trás daquele encantador olhar alguém pudesse surgir e me atingir, não resisti e o fiz.
    As mãozinhas, automaticamente levantaram-se, exibindo-me um desenho nitidamente infantil; ela balbuciou uma frase pedinte...interrogativa:
     - Você pode comprar o meu desenho?
     Evidentemente, mais do que no desenho, meus olhos fixaram-se nos olhos da menina e perguntei-lhe sorrindo: - Quem é você?
     Ela me respondeu também sorrindo: - Sou Mariana!
     - E esse desenho bonito, por que quer vendê-lo?
     Ela parecia buscar uma resposta mágica, afinal sentia que estava quase atingindo seu objetivo; não poderia perder tal oportunidade e respondeu-me: - Para comprar um alimento!
     A expectativa da minha resposta crescia no olhar da menina; o medo de que eu a decepcionasse chegava a quase esconder o sorriso que ela se empenhava em manter no rostinho com grande esforço muscular facial.
     Ouvi buzinas insistentes acusando-me de congestionar ainda mais o trânsito, mas não conseguia engrenar a marcha do carro e sair do local; algo me detinha... e era o olhar da menina, dizendo-me muito mais do que o pagamento pelo desenho poderia me transmitir. Abri a porta do carro e fiz sinal negativo com o dedo polegar para o motorista que se encontrava atrás de mim; os demais entenderam que o meu carro estava enguiçado.
     A menina agarrou-se ao espelho retrovisor do meu carro e ficou observando cada uma das minhas reações. Felizmente, meu carro estava posicionado próximo ao meio fio e pude me acalmar, retomando a conversa com a menina:

     - ...Mas Mariana, então você desenha e vende seus desenhos?
     - Vendo!
     - E por quanto os vende; qual o preço desse?
     - Ué, o preço do alimento!
     - ...Mas quanto custa esse alimento?
     - Ué, o que você pode pagar pelo desenho!
     - Você desenha e vende esses desenhos todos os dias?
     - Não!
     - Mas você precisa de alimento todos os dia, não é mesmo?
     - É, preciso, mas nem todos os dias eu consigo desenhar!
     - E quando você não consegue desenhar, de que se alimenta?
     - Ah, me alimento de esperança!!!
     - Coloquei na mão da menina todo o dinheiro de que dispunha (e que não era pouco), mas insuficiente para pagar pelo aprendizado que me concedera!




                                                                                                                      Ilka Vieira
 

 

 
 
 
 

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