Escrever é uma das coisas que não tenho medo de recomeçar. Escrever libertou-me de tudo. Aprendi a abrir as asas e estendê-las ao próximo, ao distante e... a mim mesma. Não consigo escrever muito sobre a vida de alguém, porque sempre procuro semelhanças com a minha própria vida. Quando escrevo, gosto de mudar repentinamente de um assunto para outro, e depois retornar a cada um deles com maior ênfase.

Costumo dar cor às coisas que não têm cor, poesia ao que está morto e chances à hora final. Já consegui me dar nova vida e sinto que, quando quero, dou nova forma ao meu corpo, novos traços à minha face e... me recomponho. Sempre tive medo de dormir sozinha. Hoje, quando durmo com alguém, conscientizo-me de que estou, antes de tudo, dormindo comigo mesma. Faço-me duas até me fortalecer.

Não tenho nenhuma saudade de mim, porque o que fui não quero ser mais. Desperdicei-me por muito tempo, mas não me cobro, sou livre para falhar. Nos momentos de justificativa, seria bom que substituíssemos as palavras pelos abraços. Os abraços são mais expressivos, por mais sufocantes que se comportem.

Hoje, percebo os fatos antes de entendê-los, e quando eles tentam se expor a mim, já me esclareci. Não sei se é do amor que sinto falta ou do desejo de partilhar a minha vida. Problemas, descobertas..., tudo enfrentando sempre sozinha. Esse foi um lado da vida perdido, irreparável, talvez porque o desejo da partilha fosse sempre o meu lado verdadeiro, mais real, mais desesperado, e por isso o tenha negado tanto. Nem mesmo a minha ilimitada carência foi partilhada, nem a deixei ser pressentida conscientemente.

Agora, tenho certeza de que posso dividir a minha vida entre o antes e o depois. Havia esquecido o poder que a dor tem de fazer renascer. Por todo o tempo transcorrido, coloquei-me do lado de fora, registrando, minuto a minuto, cotidianamente; sensações não vividas.

Fui retirada de mim mesma a fórceps, a cabeça esmagada, o corpo massacrado. Não gritei ao nascer e prendi na garganta meu momento de morrer.

E agora... vivo, vivo muito!!!


                                                       Ilka Vieira

 

 


Ilka Vieira, Sob a Luz da Poesia


Perguntada por mim que palavra daria para expressar a própria luz , disse-me:
- Luz, para mim, é a cor que dou aos momentos da vida!
E daí me pergunto: é preciso explicar ILKA VIEIRA...Luz e Cor...tudo isso "SOB A LUZ DA POESIA”?

É muita honra falar como ela escreve, pois o faz como a própria luz: com uma velocidade espantosa e faz chegar a nós com suavidade e com um andamento próprio. Fosse sua poesia uma peça musical, teria um andamento de nome “Andante Cantabile” – andando...cantando, seria isso.

ILKA VIEIRA é de estilo inconfundível. Seria essa a melhor definição. Definição caseira, sem os requintes dos conceitos literários, que tantas vezes acabam por se transformarem em muros repressivos às nossas palavras. E as palavras que brotam..., nascem, explodem, provocam, intuem, acordam, adormecem e frutificam através de ILKA VIEIRA. São palavras que se formatam de maneira iluminada como se fossem chuvas de fogos de artifício, mas sem o som da explosão. No céu, apenas se ouviria uma melodia inédita, assim como seus versos. Olharíamos o céu, alimentaríamos nossas retinas com seu show poético, e nossas emoções fariam com que todas as brilhantes luzes se transformassem em uma penumbra de rara beleza, sensualidade, coerência e ousadia.

SOB A LUZ DA POESIA... É assim que ILKA VIEIRA define o estado de ser do seu próprio ser. É SOB A LUZ DA POESIA que ela enxerga o papel e o lápis para inventar o infinito contido em seus poemas.
É SOB A LUZ DA POESIA que ILKA VIEIRA permeia o lúmen do íntimo dos mais nobres sentimentos humanos.

Com preciosa generosidade, fala de seus medos, de seus amores, seus sonhos e tempos. Divide, compartilha, ilumina e ainda ama as cores como ama a luz, portanto ama e celebra a vida de maneira brilhante, sedutora e calma. Mas tudo isso porque vive a alma de ILKA VIEIRA “SOB A LUZ DA POESIA”.


                              Gília Gerling, maestrina


 

 
 
 
 

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