Afago

(Em memória de minha mãe, Carolina)


 



Se eu soubesse quanto custa
para afagar-te novamente as mãos,
não hesitaria em pagar,
ainda que esbanjar valesse
o risco de só estar sonhando.

Ah, quanta agonia
fingindo-se resignada...
Quanta saudade do teu cheiro...
Quanta falta me fazem
os dias que hoje são noites.

No meu oceano de tristeza,
repentinamente emerge à superfície
rara alegria:
é o teu chamado!!!
Inclino-me e recebo
o deslizar ingênuo
dos teus suaves dedos
para um rápido afago,
antes que eu acorde, chore...
...por não poder correr
de volta ao teu útero.


Ilka Vieira

 

 
 
 
 

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