Rugas da Alma

 


I

Não haverá espelho que traduza
tão bem as tuas rugas,
como o reflexo das tuas amarguras,
guardadas e multiplicadas pelo tempo.

Retratos em preto e preto
registrados na memória;
furto dos prazeres que
a vida te impediu de usufruir;
agendas remarcadas para o além
e, provavelmente, sem ter com quem.

Parece triste, mas é ridícula...
...e até, quem sabe, estúpida,
a tua morbidez.

Transforma tua noite em dia,
ainda que seja apenas fantasia.
Não culpes a terra e a infertilidade,
se o que plantaste não tinha qualidade
e muito menos daria flor.


Ilka Vieira

 



II

Rosto sulcado pelo tempo,
marcas de desgaste natural.
Padece o corpo de morte gradual...
Vai-se o viço levado pelo vento...

Pelas gretas da amargura, a alma chora.
Lembranças do ontem machucado,
um pé no amanhã desacreditado,
desejo meio louco de ir embora...

Em meio a retratos esmaecidos
que trazem o rosto, mas não o coração,
encontros desmarcados com a ilusão...

Em agendas de registros esquecidos,
Troco o "não", frio e distante, pelo "talvez".
O corpo verga?... Faze-te renovada, Alma,...
é a tua vez!...


Regina Coeli
 

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