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Ilka Vieira
Faz escuro e eu canto.
Desobstruo e reforço as cordas,
descanalizo a necessidade de viver
por viver apenas,
sem saber por quê viver.
Aprecio as bordas do poço
e não me jogo, detenho-me por covardia,
renuncio, afasto-me lentamente,
corro, caio, quase não me levanto...
Mas, por um simples e cruel empurrão,
retorno ao fundo da minha solidão.
Sobrevivência
Marise Ribeiro
Chega até a borda,
abaixa sem pressa a corda,
traze o manancial de vida,
para refrigerar tua ferida.
Quando tua alma menos esperar,
será conduzida do escuro à tona
como a água que colheste.
Não afundes na solidão do penar...
A vida foi-te ladrona,
mas o tempo irá te curar.
Caminhaste até a borda do teu poço
num instante de demência,
mas o coração, num ímpeto de sobrevivência,
recuou desse infeliz esboço
que se apossou de ti.
Agora, solta a caçamba com força,
deixa-a bater no âmago, no fundo,
pois o peso da amargura que ela contém,
ficará para sempre nas entranhas do mundo,
libertando-te da dor que ainda te faz refém.
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