|
Lamento
Ah! eu me perdi nos teus cabelos
e me encontrei no teu sorriso.
Ouço a voz agressiva da morte que canta,
enquanto a madrugada prossegue.
Ouço a voz melíflua do cego romântico
e não tenho um piano para tocar
e não sei tocar também...
Palmilho com meus olhos o teu corpo
e minhas mãos se detém no caminho do gesto.
Era ternura, mas não entenderias...
Percorro a longa estrada do teu ser
e mergulho num sonho estranho,
enquanto a noite canta
e as palavras que fluem da pena
morrem estranguladas na garganta.
Ah! eu me perdi nos teus cabelos
e me encontrei na selva viva dos teus olhos
e era dia ainda.
Havia uma estranha luz crepuscular
no risco azul do teu sorriso,
mas não havia flores em tuas mãos
nem lágrimas no teu caminho.
Apenas o cego cantava romântico
e a morte entoava sua última canção.
Há uma verdade. Sabemos que há.
Mas não é importante.
Ou tão importante como o gesto detido,
como a ternura tolhida,
como o olhar profundo iluminado,
diverso e diferente.
Os loucos caminham pela noite.
Os cães ladram desesperados.
A morte canta.
O cego cala.
Quando o dia chegar, eu terei luz
e não precisarei dela,
terei o piano e não saberei tocar.
Terei palavras,
mas não saberei escrever.
Ilka Vieira
|
|
Canto
Amor, o dia chegou trazendo os sons
e com ele o meu discernimento,
oculto estava eu, não ouvi teu lamento,
deixei a névoa cobrir meu sentimento.
Esquece a noite anterior, já se apagou,
foi-se junto com a cegueira das utopias
que roubou e dilacerou tuas fantasias,
fez-te delirar e cobiçar fobias.
Vem caminhar na minha claridez
entoando os cânticos do desejo;
faze do meu corpo o piano da calidez,
aviva os olhos do teu cego em lampejo.
Mergulha neste mar revolto como uma sereia;
traze-me à tona em delírios de maré
cheia,
que o cantar do mar em som de maresia
perpetuará este encanto em alquimia.
Quando o dia em harmonia acabar,
verás que tuas palavras voltarão a cantar...
teus fantasmas noturnos terão sumido na estrada
e nossa ternura entoará pela madrugada.
Marise Ribeiro
|